quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Meus Poemas
 
Prezinho (Anos 70)
Havia uma escolinha...
Quando a professora saia da sala, todos ao piano!
Eu, no entanto, fugia para a sala ao lado...

O gosto do pão, o sabor do café com leite...
O escorregador, a roda, a escada - o shorts vermelho,
O boné vermelho, a camiseta branca - o conguinha...ah conguinha...

Só não me lembro onde era o banheiro,
lugar aonde nunca fui.

Sonho

À minha frente ia o ancião
quando chegou no alto do monte,
entrou numa tenda e saindo dela
trouxe-me um vaso o qual colocou
em minhas mãos.
Virei-me, olhei a altura que havia subido
-- a escada
e sai voando a despejar sobre o mundo
o seu conteúdo...

O tornado
Pelas brechas da casa velha de madeira
olhava eu a sua formação
surgiu por inteiro de detrás do morro
sob um céu de dia escuro
ninguém gritava, ninguém corria
só havia eu e a casa velha...

Dúvida
Uma dúvida covarde e brutal
esbofeteou-ma cara: O que é ser descente?
-Indagou-me. Não tinha em mim resposta,
perguntei ao sol, respondeu-me com cegueira;
perguntei então ao mar, arrebentou-me com suas ondas;
perguntei então a vento: Tomou-me num redemoinho...
Acordei num campo de flores,
todas me olharam assustadas e tive medo delas também
Perguntei: Onde estou?
Um côro uníssono atravessou-me: Logo serás colhido
então saberás.

Passam
A ponte é muito velha
os carros passam...
Os carros são muito velhos
o tempo passa...
Uma mulher, uma criança, um cão, um pássaro;
um rio--as águas passam...
Passa também um velho com seu passo pesado
mas o velho não passa
pára no meio da ponte e se lança nas águas do rio...
O pássaro some no horizonte...
O cão corre assustado...
uma mulher que apressa o passo
segurando firme a mão de uma criança
que não pára de olhar para trás.
Os carros passam...

O bêbado e o manequim
E o bêbado com o seu andar penso
faz cortesias aos pedestres no calçadão
Do outro lado da rua um manequim lhe acena
trajando um esmoker com risca de giz branca
sobre um tom escuro e pergunta ao bêbado
que apreximando-se e encara-o de baixo para cima:
estás tentando chamar atenção pra si? Não se faz assim.
Veja que eu não ando, não sorrio, não falo,não como, não bebo
Mas inerte permaneço sob o olhar de admiradores que passam.
--mas como não chamo a atenção? - respondeu o bêbado.
Se até um idiota de um boneco sem vida conversa comigo
quanto mais essas garrafas vazias que rolam sobre as ruas e calçadas.

Nem saber
Quatro luas brigavam pelo domínio da noite
Deitado na rede terminava o sertanejo:
Contanto que o grilo cante, o sapo coache,
a suave brisa sopre e eu sonhe com Josefina,
voceis podi dominá inté o dia...

Caridade
Esse é um dos bolos mais bonitos que já fiz!
-Diz o confeiteiro.
Formigas aproveitam a mínima brecha.
Vou deixá-lo à mostra na vitrine.
-Diz o confeiteiro.
Formigas aproveitam.
O garoto desnutrido vê de longe...
Bem lá de baixo...
Ao chegar diante da vitrine cai de joelhos
- A noite chega, a fome nunca se vai...
E o pobre moleque dorme
de olhos abertos, mirando o bolo.
Formigas...
Durante toda a noite a vitrine fôra visitada.
Coração pequeno, coração grande...
O bolo ia diminuindo na vitrine e crescendo na calçada.
Acorda então o menimo com um bolo diante de si.
Sim, não, sim, não.
Sim. Aquele que muito tem que reparta com os outros.
Formigas têm muito porque trabalham muito.
Então a simpática operária olha para trás satisfeita
e entra para o seu buraco dizendo:
Esse é realmente um dos bolos mais bonitos que já fiz!

A Divisa
Sol quente, uma cerca de arame farpado
e uma borboleta marrom pousada na estaca.
Ela está olhando ao longe...
Olhando para a divisa entre Pernambuco e Alagoas.
Há cajueiros por toda parte
e é fim da época das pinhas...
Alguém no arado lá em cima pára e dá ordens a um garoto.
Esse garoto então desce, passa a cancela e sai a andar
descalço pela rua de areia fina e quente...
Aproxima-se então o crepúsculo.
Em meio a penumbra da sacada da velha casa
o rosto da mãe...A borboleta no toco;
só ela encherga o garoto cruzando, ao longe,
a Divisa...

O universo
No universo há tanta desordem
e ao mesmo tempo tudo é organizado,
Eu faço a minha rede nas estrelas,
Nela me deito quando sinto-me cansado.

Dominó em branco
Da fresta do telhado olha o rato
para o poeta que em silêncio
pensa lá embaixo.
O rato olha para o lado e vê
uma aranha prestes a saltar
sobre uma mosca;
uma lagartixa chega primeiro...

Sentado à beira do rio um homem pensa que está pescando.
Como é estupido o bigode lá encima!--Diz um peixe,
enquanto uma piranha se prepara para arrebatar-lhe a cauda.

É bom melhor ser a formiga que está perdida dentro da lata de refrigerante
do que ser um leão bem alimentado num zoológico.

Goste quem gostar, mas eu sou assim e você é assado.
Então, Quem é o frango?

Seria melhor viver através das loucuras que escrevo
do que continuar escrevendo em meio às loucuras da vida...

Há coisas que escrevemos que é são como urinar.
Se urinares no vaso, quem verá?
Urina então na árvore ou no poste e, se quiseres que prestem
muito atenção à tua urina, vás fazer um exame.

Quando olhava da janela avistava uma casinha.
Quando olhava da janela avistava duas casinhas.
Quando olhava da janela avistava três casinhas...
Vieram as preocupações da vida e me esqueci da janela...
Hoje, sem querer, olhei pela janela.
Era tarde.
Já havia perdido a conta...

O que fizemos às nuvens de são Paulo?
Elas parecem tão bravas conosco, comigo...
De quanquer forma, prefiro as nuvens.

O Buda nada faz, sentado toda vida.
Shiva não se move, mas ao menos um pé levita.
Por isso prefiro a Cristo.
Nem sentado, nem se equilibrando num só pé;
Eguido ao alto venceu--enquanto um descansa
e outro brinca de fazer malabares.

Há sem fim caras pintadas nos azulejos.
Artista nenhum poderá retratá-los...
São efêmeros e permanentes, surgem
e desaparecem à menor distração.
Caras feias, bonitas, tristes, alegres...
Nelas me encontro, nelas me perco.
Amanhã elas aparecem de novo.
Se vês nuvens formas nas, não me ignores
porque as no azulejo vejo...

Brincadeira de criança
O apito da cigarra é ensudecedor, o vento sopra...
Aquele vai dar um bom estilingue. Apanho, corto, raspo,
envolvo com borracha preta, a tripa- de- mico,
o couro do sapato velho do pai.
Pronto.
Pode ir embora passarinho, é só um brinquedo.

Tempos idos
Coitado do Alemão...
Alemão dos dos cabelos de anjo,
o menor dos moleques do fim da rua...
Tinha o Marcelo, o Wagner, Dega, Bia e Pecas(Dimas),
eu(moleque), todos moleques...
Subir no abacateiro e pular da laje era legal.
Apanhar tanajuras para fritá-las na panela velha...
Nadar no rio no tempo do Jacaré, do Chiquinho,Rona
e a turma da Maria Gomes...
Alemão morreu novo...
Chiquinho também. O Jacaré sumiu--esse era ladrão
deve ser dido morto.
...O rio hoje está cheio como antes...
Mas está vazio de mim, do Jacaré, do Chiquinho,
do Rona e do Alemão--o único que vi no caixão...

Contradiçaõ? Não.
Ontem uma cobra voava.
Uma cobra voava um voo--no alto...
Diz o ditado que Deus não dá asas cobra.
E não dá mesmo.
Ao longe; desaparece a cobra sob as asas:
Sob as asas de um gavião.

Tarde
Há um som de vento batendo nas folhas do canavial...
A tarde é fresca, quase noite.
Então, lá vem o saruê em seu caminhar por sobre o muro;
Despreocupado...
O gato, por sua vez, aponta do outro lado.
Quem irá ceder?--Pergunta a si uma formiga da folha da cana.
Do nada aparece um cão.
Nem saruê, nem gato.
E o cão, resignado, dá as costas ao muro vazio.

Futuro
--O que é flôr?
O que é capim?
O que é rio?..Peixe?...
O que é chuva???
Nuvem, o que é?
--Eu também não sei, filho.
Mas acho que já ouvi falar a respeito:
Flôr caia do céu onde se ajuntavam os peixes...
Capim...capim era coisa boa pra se beber;
melhor do isso aqui-"cusps".
Rio, rio...Ah, rio era uma vila antiga...Só não me lembro
onde ficava...
--E chuva, pai, o que era?
--Chu, chuva...Ora, você me faz cada pergunta dificil!
Tempo perdido
Sentado está o joão
esperando por um trem
um trem que nunca vem.
Esperando na estação
sentado está o joão
espeando por um trem
um trem que nunca vem.
O céu está cinzento,
no chão as folhas secas
são empurradas pelo vento, pelo vento, pelo vento
folhas secas como o joão
que espera por um trem
sozinho na estação
esperando por um trem
um trem que nunca vem.
Os seus olhos estão fixos,
fixos nos trilhos,
trilhos enferrujados
há muito tempo abandonados,
abandonados como o joão,
que não se cansa de esperar em vão
sozinho na estação
esperando por um trem,
um trem que nunca vem.
joão teve a sua vez,
não só uma, duas, três...
Mas agora não tem boi
pois o último trem se foi
vai esperar sem parar,
sozinho na estação,
vai esperar por um trem,
um trem que nunca mais vem...

Lacuna dum instante
Mente vazia
Coração vazio
Estômago vazio
Mãos...Na mão uma caneta
O mundo está vazio
A conta está vazia
E...A folha do papel vai se enchendo
De coisas vazias...

Porto Alegre 2002
Águas do Guaíba,
Frio de Porto Alegre, triste.
Calor de porto triste, alegre...
Vão-se os campos a sumir : Curvados...
Pontos brancos no horizonte, gados.
E nos telhados namorando, gatos.
No coração, de casa aperta o laço
de saudades do doce regaço...
Por que na vida tanto embaraço?
E na varanda os pés estão descalços.
Quero gritar; pessoas na janela
dos prédios ao longe
feito sentinelas
olhando o Guaíba que para estrelas
espelho se faz ao reflexo delas...

Duas águas
Olhos fitos no ponto de fuga do horizonte...
Queria estar além dele: Além do ponto de fuga...
Que novas linhas fossem traçadas, mas agora para o outro lado,
não para cá.
Linhas que se abrem para um novo horizonte
onde vai haver sempre mais um ponto de fuga...
Pára, desenhista! Imploro-lhe.
Deixa-me escolher uma linha
Deixa-me escolher um rumo...
e quando chegar o pincel, pinta tudo diferente
com cores nunca usadas na vida,
até que se chegue no além...
Onde não haverá mais ponto de fuga...
Estarei lá:
Achatado na parede...No fim:
Onde o horizonte acaba...
-- E serei a pintura mais viva,
Mas, que sempre opaca, fria e triste
por fugir, fugir e ser barrado no fim...
onde tudo se achata...
Numa parede sei lá de que...
E que o amanhã seja melhor...

Determinismo
Obra de mestre
Mestre de obra
Com efeito, com afeto
confeite, confete
com festa se resolve sem revolver
sem se envolver
Quem sabe sobre sôbre o pobre fio de cobre
por chicote toda a noite de açoite
por sorte do papelote
largado deixado camunflado
sob o estrado, que estrago!
Só o caco socado no barraco, quanto trapo!
E que tristeza a pobreza
nada na mesa abaixo a riqueza
que ao pobre despreza
não resolve reza; pensa:
Vou pra guerra virar meliante
ver se traficante...
No mesmo instante me faço amante duma vida errante
--Sem esperança nunca fui criança
nasci com mordaça--bebe da minha taça
se vivo sem graça
sou tal como a traça que ao pano traça
que por onde passa que marca se faça
--Põe veneno em tudo
fico moribundo vou ao chão sucumbo
e já não sou mais mas deixei pra trás
sinais que não se apagam mais--"rapaiz"
Obra de mestre, mestre de obra
qual é a diferença
cumpro minha sentença
e se morto pensa é eterna a doença
que pesa na cabeça há muito enterrada
desterrada errada sob a terra arada
por pás e enchadas de coveiros tristes
tais como os que vistes
nos teus sonhos antes...

A flôr do caminho
...O céu azul pintado de pontos bracos,
O silêncio no vento: Saudades de um passado não vivido...
...Os bois lá embaixo, a cerca, um caminho que leva não sei aonde:
É a Serra do passado...Planta-se se-colhe...
No pico do mundo, mais alta que tudo,
que qualquer pensamento...
Pássaros cantam entre os arbustos
e vêm me contar histórias de tempos idos...
...afastam-se e vou ficando sozinho
escutando a voz da contemplação...
Um caminho de pedras diversas:
Pedras arrebentadas por cascos de cavalos e gados
e uma pequena flôr de largatixa
desafia a tudo e a todos...
Tinha ela que nascer logo no meio do caminho!
Sei que hoje já não existe mais...
Sua história não é triste, porque não tem história.
Mas o seu futuro é de tinta
e de sincera consideração...

Alua fugiu. Mas, por quê?
Talvez tenha se cansado de lutar contra o efeito centrifugador de sua amiga...
Deu lugar à vontade de conhecer outros universos...
outras galáxias...
Sua miga, no entanto, sentia lá no fundo uma grande atração por ela:
Chama-se gravidade.
Desequilibrado tornou-se o equilíbrio
e a bola luminosa ia se tornando pequena na direção de Júpter.
Talvez faça amizade com suas luas, com Pandora.
Em Júpter não há pessoas, inveja, sofrimento
dor, decepção ou destruição. É, destruição; não há.
A real destruição só pode existir onde houver vida humana.
Então a lua deixou-se desprender de seu oceãnico narcisismo,
dos amor dos lobos, dos romances dos gatos e das cronologias humanas...
Olhou para trás e virou uma cambalhota rumo ao fracassado sol.
Ao chegar lá indagou ao gigante gasoso:
Por que não tomaste o teu lugar







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